domingo, 19 de fevereiro de 2017

Promessa é dívida: Professor Osmar Fernandes Em 28/02/2009; Código do texto: T1461365





Dois estudantes, amicíssimos, estavam quase reprovados de ano. No início do quarto bimestre, um disse para o outro:
- Hei, Eliezer! Vamos fazer uma promessa para Nossa Senhora Aparecida, para passarmos de ano? Se passarmos, vamos até ao cemitério, e lá, no cruzeirinho da igreja, vamos acender três velas cada um, topa?
Eliezer, desenganado, já havia feito promessas para vários santos: para ficar bonito, arrumar namorada, curar-se de uma hérnia, ganhar na loteria, e nunca teve sorte alguma, disse:
- Ah, Wilson, minha situação é tão ruim, estou em recuperação em todas as matérias. Não há Santa que dê jeito!
Eliezer, pensou melhor, refletiu, e disse:
- Por desencargo de consciência, topo!
Apertaram as mãos, bateram o martelo, selaram o pacto e estabeleceram metas para cumprirem a promessa se passassem mesmo de ano.
O engraçado foi que a partir daquele dia começaram a estudar como nunca e chegaram a contratar o colega Nariz de Tucano – o “CDF” da sala – para ensiná-los. A escola passou a ser a prioridade.  Enquanto os colegas se divertiam, jogavam bola; eles estudavam... Para os seus pais, professores e amigos, isso já era um milagre.
 Entretanto, mesmo com muito esforço ficaram para segunda época em Matemática Comercial  Financeira, matéria do professor Rude,  severo até no nome. Chegou a comentar numa rodinha de amigos que, se eles precisassem de um décimo para passar, seriam reprovados.
Desde o início do ano levaram o estudo na brincadeira; a reprova deles era dada como certa pelo diretor, professores e outros colegas de sala. Muitos desejavam vê-los reprovados.
Wilson e Eliezer, confiantes na Santa Maria Santíssima, passaram a ser frenquentadores assíduos da igreja. Fato que lhes rendeu uma bênção especial do padre Ângelo, aumentando ainda mais a fé dos estudantes.    Passar naquela prova final virou caso de honra. Era passar ou passar.
Muita gente, ao tomar conhecimento da promessa dos discentes, fez corrente de oração. As beatas fizeram procissão – rezaram a oração do estudante... E pediram à Virgem Santíssima que intercedesse em favor deles. Passou a ser o assunto preferido do povo.Virou bilhete de aposta que apontava a seguinte situação: 1) reprovarão; 2) passarão; 3) Eliezer – passará; 4) Wilson – passará; 5) Eliezer – reprovará; 6) Wilson – reprovará. Numa pesquisa encomendada por alguns apostadores mais afoitos, apontou que a maioria esmagadora apostara na reprova dos dois.
 O dia “D” havia chegado, era a última chance. Às sete horas da noite adentraram a sala, nervosos, e o professor Rude disse: “Vocês têm quarenta e cinco minutos para terminar a prova, nem um segundo a mais, nem a menos...”. Qualquer tentativa de comunicação ou cola, é zero!!!
  Terminada a prova saíram preocupados e um disse para o outro:
- Wilson, como você foi?
O amigo respondeu-lhe:
- Acho que passo, nem que seja na marra. E você?
- Cara, foi fácil demais, tiro dez! Pela primeira vez na minha vida, gostei de fazer uma prova.
O resultado sairia no dia seguinte, e seria exposto no mural dos estudantes. O professor ao entregar a nota das provas na secretaria disse:
- Nunca tinham conseguido sequer tirar um cinco numa prova, num teste, em todo o ano letivo. Porém nessa, a estrela de cada um brilhou... Foi um milagre mesmo. Não é que os danados conseguiram!... Eliezer precisava de oito e tirou nove e meio, Wilson precisava de nove e tirou nove. Milagre!
O professor Rude, ao sair da secretaria topou uma multidão de apostadores querendo saber o resultado antecipado, e disse:
- Amanhã vocês ficarão sabendo! A zebra foi grande!!
Teve aluno que gritou:
-Eu já sabia, tinha certeza que reprovariam.
Lá no fundo, os dois amigos rezavam e diziam:
- Se passarmos, amanhã mesmo nós pagaremos a promessa.
Naquela noite não dormiram, ficaram impacientes.. Os minutos se transformaram em infindáveis voltas preguiçosas no ponteiro do relógio. O resultado sairia às sete da noite.
As cinco já estavam lá, juntamente com uma multidão de curiosos, apostadores e interessados.
Exatamente na hora prevista saiu o resultado, e no empurra, empurra ouviu-se o grito:
- Eliezer! passamos!... É o milagre de Nossa Senhora! Obrigado, meu Deus! (...)
A felicidade dos aprovados, parentes e amigos que apostaram neles foi tamanha. A tristeza dos que perderam a aposta foi surpreendente.
A festa foi grande na casa do Wilson...
Teve gente que, ao saber da notícia, não acreditou. Foi tarde da noite conferir o resultado no mural da escola.
Passaram de ano porque investiram na sorte, estudaram mesmo.
E lá foram pagar a promessa naquela sexta-feira treze...
O céu estava sem estrelas. A escuridão parecia cobrir o mundo todo. O cemitério ficava longe da cidade. Os pagadores de promessa chegaram a pé no portão do campo-santo com as velas nas mãos, à meia-noite.
 De supetão, Eliezer tremeu, sentiu um frio nas costas, e o seu subconsciente denunciou: “Que mal fiz pra Deus? Que pecado cometi? Que lugar horroroso, é este? Que escuridão! Não consigo ver um palmo adiante do meu nariz”.
 Morto de medo, sussurrou no ouvido do amigo:
- Cara! Já passamos de ano mesmo, vamos dar o fora daqui, este lugar é horripilante... Estou me sentindo um rinoceronte, uma besta quadrada, um idiota. Mal consigo tirar os meus pés do chão. Vamos pra casa, algo me diz que isso não vai dar certo.
O Wilson, que tinha a fama de brigão, teimoso e cumpridor de seus deveres, disse:
- Não senhor! Fizemos uma promessa a Nossa Senhora Aparecida, ela cumpriu a sua parte. Agora, vamos cumprir a nossa.
Eliezer respondeu assustado:
- Ah, mano! Esse negócio de pagar promessa é bobagem!  Vamos tomar uma “geladinha”, pegar umas gatinhas e vamos chacoalhar os esqueletos no bailão do Mané Neco?  Isto aqui é programa de índio!  Estamos parecendo dois caciques pisando em terra sagrada e tentando invocar os espíritos para salvar a aldeia de alguma epidemia branca. Vamos cair fora?
Wilson, ao pôr a mão no portão, verificou que estava trancado com cadeado, e disse:
- Que droga! Não sei por que o coveiro tranca o portão do necrópole deste jeito.
Eliezer alegrou-se, e disse:
- Então, ta tudo certo! Se não tem jeito de adentrarmos, Nossa Senhora vai compreender nossa boa intenção; ta paga a bendita promessa!
Wilson, que nunca deixou de pagar uma promessa, disse:
- O inferno ta cheio de gente de boa intenção! Vamos pular o muro... Vamos pagar nossa dívida, custe o que custar! E você vai junto comigo, nem que eu tenha que levá-lo amarrado. Eu não vou pro inferno por causa do seu medo. Larga de ser “cagão!” Se não fosse a promessa, agora estaríamos reprovados, e os “sarristas” iriam gozar da nossa cara para sempre.
Sabendo da fama do amigo bravo, pensou: “Se eu correr, depois ele me pega, me dá uma surra e me traz aqui de qualquer jeito; se eu entrar aí, não sei se volto vivo... To lascado! Onde estava com a cabeça que fui fazer uma promessa dessas com esse louco!... Ah, meu Deus, por que passei de ano?! Sou uma besta!”
Wilson, já meio impaciente, nervoso, disse:
- Pegue aquele pau ali, encoste-o no muro, e vamos pulá-lo, agora mesmo!
Eliezer sentiu um frio na espinha, e pensou de relâmpago: “Além de tudo, tem olhos de águia, como conseguiu enxergar este pau?... Se eu ficar, o bicho pega, se correr, o bicho come...”.
 Resolveu atender o amigo. Pegou o toco, apoiou-o no muro, que não era tão alto assim e saltaram.  Nesse exato momento, todas as luzes da cidade e as  do cemitério apagaram-se de repente. Eliezer deu um grito, dizendo:
- Não falei! Não falei! Vamos sumir daqui, Wilson?
Corajoso que era, do signo de leão, teimoso feito uma mula, o amigo respondeu ao medroso:
- Se você repetir mais uma vez essa conversa mole, vou amarrá-lo numa catacumba e o deixarei até o raiar do dia.
O medroso respondeu imediatamente:
- Você não ta doido! Nem brinque com uma coisa dessas!  Estou passando mal, o mundo está rodando... Tudo está ficando escuro.
Seu amigo disse de repente:
- Claro que está escuro, sua besta. O céu está um breu, as luzes apagadas, é óbvia a escuridão!
Do local onde estavam até o cruzeirinho da igreja, tinham mais ou menos trezentos metros.  E, depois de tanta lengalenga, começaram a dar os primeiros passos rumo ao lugar prometido.
Os dois uniformizados de camisas brancas e calças azuis, pareciam fantasmas flutuantes. A cada tumba que passavam, Eliezer tremia.  E, mesmo naquele breu, enxergavam quase tudo à sua volta... Estavam atentos a qualquer barulhinho que fosse.
O morto de medo, disse:
- Deixa eu segurar na sua mão, senão eu vou desmaiar, estou passando mal, estou enxergando um montão de alma penada... Eu não devia ter feito esta promessa! Deixa?
Mas Wilson, macho pra chuchu, não admitia uma coisa dessas de jeito nenhum, e foi irredutível ao  dizer:
- Larga de ser “cagão”, cara!  Ta me estranhando! “Cada qual com o seu cada qual...” Isso é coisa de bichinha! De moleque catarrento... Que é isso, Eliezer, você é um homem ou um saco de batata?
O medroso respondeu sem pensar:
- Sou um saco podre, acho que to todo borrado mesmo...
Wilson quis rir, e disse baixinho:
- Não fale uma coisa dessas aqui. Estamos pisando em terra santa.
Eliezer disse:
- Estou de mal a pior... Minha barriga ronca e não é de fome, não!...
Dentro da capelinha do cemitério um velhinho cochilava  tranqüilamente... Jamais concordara em morar num asilo... Por isso, sem ter para onde ir, abrigava-se ali há muito tempo.
De repente, Eliezer tropeçou num túmulo e gritou:
- Valha meu Deus!
Wilson, num piscar de olhos, tapou-lhe a boca e disse:
- Cala-te, infeliz. Aqui é lugar sagrado. Não grite.
E, dessa vez, segurando na mão do Wilson, disse:
- Não me solta, por favor, eu lhe imploro!!
E continuaram a passos lentos, em busca do lugar sacrossanto.
O velhinho, seu Mané, levou um susto com o grito. Nunca ouvira nada igual antes. Ficou agoniado e o seu medo o fizera rezar, dizendo:
- Meu Deus, o que foi isso?  Não desampare um servo do Senhor.
 Levantou-se do chão, e, pela fresta da janela, olhou e viu um vulto indo em sua direção.
Eliezer, de súbito, deu uma parada cinematográfica, e disse no pé do ouvido do amigo:
- Somos dois idiotas mesmo...  Vamos acender as velas?!
Alegre com a idéia fascinante, pegou o fósforo. Entretanto, Wilson, mesmo um pouco tenso, lembrou-se que a promessa era acendê-las no cruzeirinho, e disse:
- Não faça isso. Se acendê-las, quebrará a promessa. Não acenda de maneira alguma. Se teimar, juro que eu abro uma catacumba e amarro você junto com o defunto.
Obedecendo, respondeu resmungando:
- Tudo bem, não fique zangado, foi só uma idéia boba.
Seu Mané, enxergando um batalhão de fantasma cada vez mais perto, pegou o rosário e começou a rezar o terço. Apavorado, pegou um lençol branco e se enrolou, tentando se proteger. Mas, de olho arregalado, pela fresta, imaginou pensando: Meu Deus, hoje é sexta-feira, treze, “dia das bruxas!” Dia de fazer despacho, macumba... É o meu dia de azar. Estão vindo me pegar...”
Os dois amigos estavam bem próximos da igrejinha.
Seu Mané, vendo aquela coisa se aproximando demais, sentiu seu coração saltar pela boca... Soltou um pum e barro pra todo lado... Seu medo foi tanto que nem se deu conta de sua “obra-prima...”.  Não pensou duas vezes: abriu a portinha da capela e saiu em disparada, gritando:
- Salve-me! Salve-me! Salve-me, Nossa Senhora da Medalha Milagrosa!
Os dois amigos, surpreendidos por aquela imagem aos berros, gritaram:
- Meu Deus! O que é isto?!  Minha Nossa Senhora Aparecida!!!
Escafedeu-se cada um para um lado.
Eliezer, o medroso, desabou logo ali perto da tumba do cientista maluco – que dizia ter feito o transplante de cérebros. Wilson escondeu-se detrás do túmulo do rico excêntrico – Zé Goteira...    Seu Mané, coitado! Caiu desfalecido sobre uma sepultura eremita.
 Wilson começou a rezar:
- Minha Nossa Senhora Aparecida, salve-nos, ó Virgem  Santíssima, honra de nossa terra, a quem rendemos  um culto de piedade e veneração; tem  piedade do meu amigo, não o deixe morrer. A Senhora sabe que só viemos pagar a nossa promessa. Imploro que nos abençoe. Rogai por nós, mãe do amor e da compaixão. Ouça as minhas preces.
Em seguida, como já tinha sido coroinha, rezou o terço em voz alta, e, de repente, caiu em sono profundo.
Ao amanhecer – o sol já mostrando a sua cara, como de costume – o coveiro veio zelar do cemitério. Ao se deparar com um corpo estendido no chão, levou um susto:
- O que é isto meu Deus?!
 Mesmo ele acostumado a lidar com defuntos, enterros e histórias assombrosas, teve medo, suas pernas bambearam, só não foi ao chão também, porque era muito corajoso, e tinha muita fé no seu Santo Emídio.  Tocou no corpo que se mexeu e resmungou estranhamente... O coveiro exclamou:
- Credo em cruz! Meu Santo Emídio, tende piedade!
O corpo acordou com o grito e, assustado, olhou aquele homem de branco e disse de supetão:
- Aqui é o céu? O Senhor é São Pedro?
O coveiro respondeu:
- Que São Pedro! O senhor ta doido? Quem diabos, é você?
O corpo, afobado, disse:
- Virgem Maria Santíssima! Acho que vim parar no inferno... E o senhor, então, só pode ser o chifrudo, belzebu, o cão! Valha-me Deus! Socorro! Socorro! Socorro!
O coveiro, apavorado, respondeu firmemente, dizendo:
- Cale a boca!...  Aqui não é o inferno. Nem sou o diabo... Aqui é o cemitério municipal da cidade, seu idiota, você não está reconhecendo?
Como se demarcasse o território, o corpo deu uma boa olhada para todos os lados, assombrado, e agora, preocupado e entristecido, disse, baixinho:
- Então, quem é o senhor?
E ele respondeu:
- Sou o coveiro.
O corpo levou as mãos à cabeça, desesperadamente, e falou:
- Então eu morri mesmo! O senhor veio me buscar para me enterrar, me sepultar. Valha meu Padim Ciço!!!
O coveiro foi enfático ao responder:
- Não, seu imbecil, você não ta morto! Morto não fala, não vê, não respira e nem discute com o coveiro... Quem é você, rapaz? O que está fazendo aqui? Quem é você?
O corpo respirou profundamente, e disse:
- Acho que sou o Eliezer... Quer dizer, sou eu mesmo... Sou estudante! Cadê o meu amigo, Wilson?
O coveiro quase foi à loucura, e disse:
- Amigo, que amigo? De quem você está falando?
Eliezer disse categoricamente:
- Do Wilson – o fotógrafo – aquele que tira retrato. Todo mundo o conhece. O senhor, não?
Ele respondeu já meio zangado:
- Claro que conheço, todo mundo nesta cidade abençoada o conhece. Eu também.
Eliezer, desconfiado de que o coveiro estava achando que era uma lorota, disse:
- Pois é, ele veio comigo. Quero saber cadê ele. Será que ele morreu?
O coveiro, não entendendo nada, disse:
- Morreu?! Morreu de quê?
Eliezer, o “cagão”, já ficando com medo do coveiro, por ter invadido o cemitério, disse:
- De susto! Ele é muito nervoso... Deve ter sofrido uma taquicardia, ontem, e bateu as botas! Bem que eu avisei que esse negócio de pagar promessa não ia dar certo. No entanto, ele é “teimoso feito uma mula.” Não me ouviu... Ele me forçou a entrar aqui, seu coveiro! Ele me fez pular o muro do cemitério para acender as velas e...
De repente, Eliezer viu, logo adiante, ao lado de uma tumba, um corpo estendido, e gritou:
- Olha lá! Olha lá, seu coveiro! Não lhe falei que ele veio comigo!
Correram até o corpo e, ao se aproximarem, Eliezer assustado, medroso, totalmente confuso, não se lembrava direito do que tinha acontecido – só aquele grito estava dentro do seu ouvido, disse:
- Esta coisa gorda e cagada não é o Wilson, não!
O coveiro quase foi a nocaute, e de cabelos em pé, dessa vez com muito medo também, tremendo, tocou naquela coisa enrolada, desenrolou-o como um raio, e descobriu que se tratava de um senhor idoso. Respirou, ganhou novo fôlego, e impostou a voz dizendo:
- Acorda, bode velho! Acorda! Acorda, cabra sem CPF!!
O velho, abrindo os olhos e vendo-os, quase morreu de raiva, e delirando ainda, disse:
- Será possível que nem no cemitério a gente pode descansar em paz?! Não amola!
O coveiro, irritado, deu-lhe um grito:
- Será que vou ter que chamar a polícia?!
O velho morria de medo de polícia... Despertou imediatamente, reconheceu o coveiro, e disse:
- Calma, não é preciso.  Já vou “deitar o cabelo”, agora mesmo.
O coveiro disse:
- Ah, não vai não. Antes quero saber o que o senhor faz aqui, podre desse jeito?
Ainda meio perturbado, respondeu-lhe:
- Sei lá, moço! Eu estava aqui, dormindo no meu cantinho, sossegado, ali na capelinha, quando de madrugada, na hora do despacho, vi um monte de fantasma querendo me pegar, saí correndo e... É tudo o que me lembro.
O coveiro baixou a cabeça reprovando toda essa história, não acreditando muito no que via e ouvia... Enquanto isso, o velho foi até a torneira e banhou-se.
O coveiro interpelou o velhinho, dizendo:
- Então o senhor é o fantasma famoso do cemitério...  Que vagueia por aqui toda noite? Seu safado! Seu velho caduco! Passei muitas noites em claro lhe procurando, infelizmente nunca consegui pegá-lo. Que coisa!..
O velho respondeu com autoridade:
- Calma aí...  “Devagar com o andor que o santo é de barro!” Respeite-me. Sou um velho sim, mas tenho idade para ser seu pai. Só vim dormir na capela porque não tenho casa. Tenho um monte de filhos, porém, a vida é assim: a gente deixa de comprar um pedaço de carne para educar um filho, para ajudá-lo a ser gente. Quando cresce, esquece de pai e mãe.
Minha mulher morreu há muito tempo, e eu vivo pelo mundo.
Minha mãe sempre dizia que uma mãe vale por cem filhos, mas, cem filhos não valem uma mãe.
Não gosto de asilo. Aquilo é coisa de quem está esperando a morte chegar. Eu ainda quero viver muito. Sou pobre de “marré de si.” Meu bolso há muito não vê um vintém, todavia, sou rico de saúde, gosto do viver.
Nunca assustei ninguém propositadamente. Alguns moleques que vieram aqui “cheirar...”, corri com eles... Foi assim que nasceu o boato do fantasma do cemitério.
O coveiro e o Eliezer choraram de tanto rir. Desvendaram o mistério do fantasma do cemitério casualmente.
Eliezer, ao levantar os seus olhos grandes e negros, avistou seu amigo mais adiante e gritou:
- Olha... olha lá! Agora é o meu amigo irmão Wilson, seu coveiro. Eu não lhe disse que ele veio comigo! Vamos, corre! Corre!
Ao chegarem lá, constataram que se tratava mesmo do colega do Eliezer. Seu Mané, ao vê-lo, gritou:
- Sangue de Cristo tem poder!
Wilson acordou meio abobado, e, assustado, disse:
- Eliezer, cadê as nossas velas?
- Estão aqui. – disse o amigo.
- Vamos pagar a nossa promessa!  – disse o Wilson.
Seu Mané e o coveiro ficaram amigos e seguiram os estudantes rumo ao cruzeirinho da igreja do cemitério. Acenderam as seis velas e oraram a Nossa Senhora Aparecida, agradecendo-a por terem passado de ano.
Depois foram à casa do coveiro, tomaram café, e os estudantes lhe contaram tudo o que havia acontecido e o porquê da promessa.
Seu Mané prometeu para o coveiro que nunca mais iria dormir na capelinha e procuraria um albergue ou outro lugar naquele dia mesmo.
O coveiro conta essa história para todo mundo até hoje.
A partir desse episódio os estudantes levaram a escola a sério. Passaram a fechar todas as matérias sempre no terceiro bimestre... Aprenderam a lição: Quem estuda, passa.
E, para todo mundo, Wilson alertava:
- Promessa é coisa séria. Só prometa uma que possa cumprir, porque, promessa é dívida.
Professor Osmar Fernandes
Em 28/02/2009; Código do texto: T1461365

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Cafezinho das três no cemitério: Professor Osmar Fernandes, em 26/02/2009; Código do texto: T1457860





          Três horas da tarde, sol ardente. Hora sagrada do cafezinho dos quatro coveiros, que, sentados em um túmulo, contavam histórias de arrepiar.
          De repente, o sol se põe. O tempo obscureceu. Começou a trovejar. O céu anunciou chuva, vento forte, temporal. Amedrontados, perceberam que isso só estava acontecendo dentro das limitações geográficas do cemitério. Foi coveiro correndo pra todo lado.
          Nesse momento tremularam catacumbas, túmulos, covas abertas, etc. As folhas das árvores choveram sobre o cemitério. Ninguém enxergava mais nada.
          Um dos coveiros, espantado, notou que o portão grande do cemitério ora abria, ora fechava, e batia uma parte na outra assustadoramente. Parecia o badalo do sino de Deus anunciando o fim do mundo. De súbito, observou uma silhueta vultosa, esbranquiçada, tentando se esconder da tempestade. Não compreendendo o mistério e tremendo de medo, de sua boca ecoou um grito pavoroso, dizendo: "É alma penada! É bicho feio! Valha-me Deus!" Começara a rezar para São Miguel Arcanjo (A Oração contra as ciladas do demônio).
          Nos outros coveiros viam-se apenas seus olhos esbugalhados, fitando aquela coisa estranha que parecia bicho de outro mundo.
          Um dos coveiros tenso, pasmo, seguiu com os olhos aquela “coisa”, que flutuava perdidamente, em ziguezague, em busca de abrigo. Estava morrendo de medo...
          Outro, apesar do momento esquisito e do ser fantasmagórico, só pensava nos túmulos que já tinham sido saqueados. Imaginava que se tratava de mais um vândalo ou de um ladrão, tentando assustá-los. Outro dia mesmo dera falta das inscrições douradas, prateadas, de muitos jazigos. Os parentes das vítimas exigiram das autoridades, justiça. Dias atrás tinha flagrado um idiota defecando em cima de um túmulo. Ao pegá-lo, lhe dera uns safanões, pontapés – este nunca mais se atreveu a importunar o sono sagrado dos mortos.
           O instante era de apreensão, medo, nervosismo. A ventania não parava. Aquela “coisa” esvoaçava como assombração peregrina. E de repente, sumira.
          Um coveiro que não a perdera de vista, foi ao seu encontro. Para sua surpresa se viu diante de um vulto mágico dentro duma cova, levitando. (Aquela cova aberta estava pronta para receber seu ilustre morador, que já estava a caminho.) Assustado, o coveiro chamou um dos colegas, que ao se aproximar, deparou-se com aquela “coisa” dentro da cova. Foi tomado por uma síncope descomunal... Ao sentir-se vivo novamente, tratou de abandonar seu companheiro, seus pertences e deitou o cabelo.
          Outro coveiro vendo aquela cena, aproximou-se, e ao ver aquilo, gritou: Sangue de Cristo tem poder! Isso é alma penada mesmo! Minha Nossa Senhora da Boa Morte! Saiu em disparada com as mãos à cabeça, tropeçando, caindo, se levantando, e aos berros dizia: Deus me livre! É o fim dos tempos! Socorro!
          O coveiro, o corajoso, que olhava a “coisa” resolveu lhe perguntar de supetão: - Que faz aí dentro dessa cova que não lhe pertence?
          "A coisa” com uma voz trêmula do além, lhe respondeu sem pestanejar: - Vocês não me deixam em paz. Sentam em cima de mim contando histórias cabeludas, mentirosas; e ainda por cima, sujam meu túmulo com farelo de pão, de bolacha, café.
          O coveiro, o corajoso, então lhe disse: - Vou chamar o padre para lhe dar a estrema-unção. Você não diz coisa com coisa. Está louca! Tá na ânsia da morte.
          E a “coisa” ali, como alma penada que era, engoliu a língua por uns segundos... E lhe respondeu: - Não precisa! Já tô morto há muito tempo. Não tá me conhecendo? Sou o Luiz. Você que me sepultou. Não se Lembra de mim, Roberval?
          O coveiro perturbado pensou: "Santo Deus, isso não tá acontecendo comigo! Vou buscar água benta e vou jogar em cima desta coisa esquisita. Será que é o Luiz mesmo..."
          A “Coisa” lhe respondeu aborrecida: - Claro que sou o Luiz!... Você e os seus colegas estão usando meu túmulo como cozinha de cemitério. Não façam mais isso. Deixem-me descansar em paz. Quero ter o sono eterno que mereço.
          E, falando isso, a alma penada elevou seu espírito até seu túmulo que se abriu sozinho...  Ao adentrá-lo, disse: "Dêem-me paz!"  Ao repousar, fechou-se o túmulo, e misteriosamente, o temporal cessou.
          Os coveiros do cemitério ficaram extáticos ao ver aquela alma se refugiar. Roberval comentou com os demais colegas de serviço o pedido que o Luiz lhe fizera...  Prometeram que nunca mais usariam túmulos para tomar o costumeiro cafezinho das três.
          Contam essa história para todos os visitantes, e  lhes pedem encarecidamente, para que não sujem o cemitério, e mantenham limpos os túmulos dos seus entes queridos.
Professor Osmar Fernandes, em 26/02/2009; Código do texto: T1457860

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O Tocador de Sanfona: Professor Osmar Fernandes em 27/10/2009; Código do texto: T1889178



              Zangado, endividado e desempregado, Juvêncio, o Tocador de Sanfona estava de mal a pior.
              No sábado, ao meio-dia, sua esposa lhe perguntou:
             - Você não pegou nem um arrasta-pé para tocar hoje?
              O marido enfurecido lhe respondeu:
              - Não! Parece que ninguém mais quer me contratar.
              Dona Joaquina, a esposa brava, disse-lhe:
              - Você precisa dar um jeito... Não tem mais nada na despensa. Não sei o que fazer para os meninos comerem.
              O homem bravo, dando socos no ar disse em alto e bom tom:
              - Hoje toco nem que seja no inferno!
              A mulher lhe respondeu com fúria:
              - Desde que você traga dinheiro, pode tocar até para o chifrudo!
              Juvêncio pegou sua sanfona e saiu a pé, sem destino... Andou muito e já de noitinha, cansado, descorçoado, sentou-se diante de uma árvore frondosa. Sem querer cochilou, tirou uma soneca, e só acordou com o chamado de alguém:
              - Oi, Tocador de Sanfona, acorda! Aonde você vai tocar hoje?!
              - Moço, eu to sem rumo, não tem um lugar certo, não! A coisa ta feia, faz tempo que não toco em lugar nenhum.
              - Então achei o homem certo! Monta no meu cavalo branco e vamos que, estamos precisando de um tocador de sanfona lá no meu terreiro.
              Juvêncio ao subir, o cavalo branco partiu em disparada, e, como uma bola de fogo desapareceu naquela imensidão.
              Meio zonzo, o Tocador de Sanfona, num piscar de olhos, apareceu no palco daquele imenso salão de festa e viu muita gente conhecida ali... Ficou confuso pois todos já haviam falecidos. Observou também gente esquisita, estranha e de todas as idades.
              Seu Chico, um velho amigo, aproximou-se dele, e lhe perguntou:
              - Até você, Tocador de Sanfona!... Bateu as botas do quê?
              O Tocador de Sanfona ficou meio sem graça, porque se lembrou que havia ido ao velório do seu Chico e disse-lhe:
              - Seu Chico, o senhor não tinha morrido?!
              - Morri sim! Mas essa história é longa... Toca logo esse baile antes que o povo faça uma revolução aqui dentro.
              O seu Juvêncio, simples que era, pegou sua sanfona e tocou aquele baile à noite todinha.
              Ao terminar o baile, um homem vestido completamente de roupa vermelha, apareceu-lhe, deu-lhe um envelope fechado e disse-lhe:
              - Tocador igual a você, aqui no inferno nunca tinha aparecido ainda. Tomara que morra logo para vir pra cá nos alegrar com sua sanfona.
              O Tocador respondeu na bucha:
              - Ta louco homem! Sou do bem, sou filho de Deus!
              O homem de vermelho, enfurecido, respondeu-lhe:
              - Pode ser, mas eu estou de olho na sua alma!
              Seu Juvêncio lhe disse:
              - Que brincadeira macabra é essa?! Sai de mim espírito de belzebu!
              O capeta lhe respondeu:
              - Eu sou o próprio... Pega seu dinheiro e vá logo, antes que eu me arrependa e lhe segure aqui antes do seu tempo.
              O enviado do Diabo colocou o Tocador na garupa do cavalo e lhe disse:
              - Tocador, aqui é o inferno! Aquele que você conversou ainda a pouco é o Satanás, o dono do mal. Não brinca com ele não, cara, você é doido!
              - E, você quem é?
              - Eu sou um desgraçado que em vida só fiz maldade e vim parar nesse fim do mundo, no inferno... Só teve essa festa aqui, hoje, porque o Capeta está de olho em toda sua família. Ele lhe trouxe aqui para lhe enganar, para você pensar que aqui é bom... Mas aqui é só dor e sofrimento. Toda vez que alguém lembra seu nome, lá na terra, Ele nos faz reverenciá-lo... Ele quer ser deus também... Ele é o deus do mal. Cuide-se antes que venha parar aqui também! Quando você falou que tocaria, nem que fosse no inferno, o Diabo estremeceu de alegria e loucura, por isso, lhe apareceu.
              Seu Juvêncio, quando foi lhe indagar, percebeu que estava sozinho debaixo daquela árvore frondosa e balançou a cabeça, pensado ter tido um pesadelo... Mas, ao se levantar, percebeu um envelope perto de sua sanfona e o pegou e partiu para sua casa.
              Ao chegar à sua casa, chamou a mulher e lhe disse:
              - Aí está o dinheiro que você queria. Pegue-o. Este foi ganho lá no inferno!
              Dona Joaquina respondeu-lhe:
              - Deixa de besteira homem! Dinheiro é dinheiro. Sem grana não se paga à água, a luz, a compra, etc. O importante é tê-lo, não me importa de onde vem. Esses locais de bailes virou um inferninho mesmo...
              Ele contou toda a história para mulher e lhe disse que havia conversado com o próprio Capeta e que viu seu Chico lá também... Que o Chifrudo estava de olho em sua família.
              Ela lhe respondeu que dinheiro é tudo igual e que iria gastá-lo da melhor forma possível. Ela disse que agora estava se sentindo gente de novo, etc.
              Seu Juvêncio lhe disse nervoso: “Vamos queimar esse dinheiro sujo, mulher!”.
              - Ta louco Juvêncio! Imagina que vou fazer uma bobagem dessas.
              - Olha mulher, antes de vir com esse dinheiro pra cá, eu me pus de joelhos e pedi perdão para Deus, nunca mais vou falar o que falei ontem: “Que tocaria nem que fosse no inferno.” Deus vai me ajudar para que isso nunca mais me aconteça.
              - Ta besta, homem! Ta vendo que eu não vou queimar esse dinheiro. Você tocou no inferno e foi pago pelos seus serviços. Agora vou pagar as contas e fazer compras, antes que nossa vida vire o inferno.
              Dona Joaquina se produziu toda e foi para a rua com a grana fazer o que tinha que ser feito.
              Seu Juvêncio pegou no sono e teve um sonho: “No sonho um anjo lhe tirava de dentro de um caixão preto e no seu lugar colocava sua mulher.”.
              Ao chegar à sua casa, a mulher feliz da vida, disse ao marido:
              - Agora somos gente de novo, temos crédito em todo lugar.
               Seu Juvêncio meio sem graça lhe contou o sonho que tivera há pouco...
               Ela lhe respondeu enfurecidamente:
              - Você está muito medroso Juvêncio, ta um verdadeiro CAGÃO, ta morrendo de medo à-toa... Larga de ser besta homem, pelo amor de Deus!
              Ao cair à madrugada, Dona Joaquina sofreu um enfarte fulminante e teve morte súbita.
              O bicho-homem do cavalo branco apareceu, pegou o corpo, colocou-o em sua garupa e desapareceu.

             
                                               
Professor Osmar Fernandes
em 27/10/2009; Código do texto: T1889178

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Aparição do Capeta

 


          Certo dia, noite escura, num terreno baldio, próximo a Igreja Católica, daquela cidadezinha esquecida do mundo, três moleques arteiros, satânicos, pegaram uma abóbora, bem grande e fizeram dela uma caveira bem feia – o satã em pessoa; acederam uma vela vermelha e a fixaram na cabeça de um toco e a puseram por cima. Ficou parecendo o demo do inferno, o capeta mesmo.

A missa acabaria às vinte horas. Os fiéis, que, passariam por ali, a pé, certamente a veriam; ela estava num ponto estratégico, bem na esquina. Era uma caveira feita de abóbora, mas o pessoal, assustado, viu o Capeta mesmo, o verdadeiro satanás do inferno.

O pessoal ao sair da missa, viu o capeta em pessoa e  gritou: Valha-me Deus! É o cão!... Jesus, socorro! Tende piedade! Minha Nossa Senhora da Aparecida! Salve-me Senhor! Salve-me! 

Foi gente correndo para todo lado. O diabo tava solto... Os três capetinhas caíram na gargalhada... quase se mijaram de tanto rir daquela traquinagem. Quando o local se esvaziou, saíram da moita e se depararam com um corpo estendido no meio da rua.

Joãozinho, o nanico, gritou: É a dona Julieta! Ela tá mortinha da silva! E, agora, meu Deus?! Tamo lascados!

Pedrinho, o gago, disse: Viiixeee, aaagooraaa desgraçou tuuuudo! Vooouuu deeeiiitaaar oooo caaabeeeloo!

Luquinha, o mala-sem-alça, esbravejou: Cala a boca, gago, infeliz! Calma aí, seus frouxos, ninguém viu a gente! Não vai nos acontecer nada! Ela morreu de susto! E daí?!... Vamos tirar a caveira dali e vamos dar no pé.

Feito leopardos, esconderam a caveira demoníaca e se escafederam.  Não demorou muito e a polícia chegou ao local. D. Julieta foi levada ao hospital, e lá, acordou do susto, foi medicada e falou:

          - Meu Deus, onde estou? O que era aquilo?! Eu preciso falar com o Padre Bento. Era o Demônio em pessoa! Valha-me Deus!  Credo em cruz três vezes!

O médico e a enfermeira disseram para ficar calma porque naquela idade era comum ver coisa que não existe, coisa anormal, sobrenatural; é o poder da mente humana. Deram-lhe um calmante e ela apagou em sono profundo.

A notícia, como rastilho de pólvora, ganhou a cidade, e o falatório era um só, de que Dona Julieta tinha batido as botas porque tinha visto o capeta. Os três endiabrados, assustados, sabendo do acontecido, se esconderam, cada um em sua casa, debaixo da cama.

O pai do Joãozinho disse para esposa:

- Bem, Dona Julieta viu o capeta e morreu! Estão falando que o Demo veio buscá-la. Faladeira como é, não duvido nada... Amor, toma cuidado, viu!

E a esposa lhe respondeu:

- Tá louco, homem, eu não falo da vida de ninguém, não! Tenho mais o que fazer.

O marido deu uma risadinha maliciosa e foi trabalhar.

O investigador de polícia fazia uma busca no local do crime e achou uma pista, um pé de chinelo de tamanho trinta três. Era a única prova que tinha em mãos. Chegou na delegacia e disse ao Delegado:

- Senhor delegado, aqui está à prova do crime!

Dr. Clécio riu e lhe disse:

- Quer dizer que o capeta perdeu um pé de chinelo e foi saltando para inferno. kkkkkkkkkkkkkk (RIU TANTO QUE SE ENGASGOU). Esse capeta tem que ser enquadrado, Cido! D. Julieta, sua vó, quase morreu e tem gente trancada dentro de casa com medo. Esta cidade está de pernas pro ar.  Cidade pequena com problema de cidade grande. Se esse povo não melhorar, Deus vai aniquilá-lo, assim como fez com Sodoma e Gomorra.

O Investigador pensou: “Vou pegar o desgraçado que fez isso com a minha vó. Ateu, eu não sou não; daí, acreditar que isso é obra do Demo, já é demais para minha inteligência”.

O Padre Bento, assim que soube do acontecido entrou no terreno baldio e fez uma devassa, procurou por todo lado e achou a cabeça da abóbora e a vela, debaixo dum pé-de-limão, e pensou: “Eu sabia que não tinha diabo nenhum nessa história! Esse meu povo inventa cada uma! Perdoai-os, ó Deus! Povo de pouca fé!

Com a notícia da aparição do capeta, a Igreja superlotou, a primeira missa do dia seguinte, estava cheia e o dízimo aumentou sobremaneira, e o Padre ficou pensando se dizia ou não no sermão sobre a aparição do Demo. Pensou... E, nada falou.

Os três pestinhas se reuniram, e Luquinha disse:

- A velha não morreu... Com o susto, desmaiou. Ela sairá do hospital hoje à tarde.         

Pedrinho, o gaguinho, disse:                 

- Maass, aaa pooolíciiia está investiiiigaaando. Oooo queee fiiizeeemos ééé criiime; dáaa cadeeeeiiia! Seee aaa políiiciiiia deeescoooobriiir queeem feeez iiisso, aaa ciiiidaaaadeeee toooda fiiicará saaaabeeeendo. Nóooos vaaaamos seeeer liiinchaaaadooos!

Joãozinho, o nanico, disse:

- Eu sou coroinha, vou me confessar com o Padre Bento e vou lhe contar tudo. Se o meu pai souber disso vou levar uma peia, uma surra daquelas de tirar o couro... Deus me livre de ir para cadeia!

Os dois amigos disseram juntos:

- Você não tá nem doido! O Padre vai matar a gente!

Joãozinho disse:

- Eu tô com medo!

Os três amigos fizeram um pacto: Nunca contariam sobre a caveira para ninguém. Levariam esse segredo para o túmulo.

Joãozinho confidenciou: “Perdi um pé de chinelo, presente do meu pai. Fui lá na data procurar e não o achei. Temos que achar o chinelo logo”. Seus amigos não lhe deram ouvidos e foram-se embora.

O investigador conhecia todo mundo da cidade, saiu de casa em casa perguntando se aquele chinelo pertencia a alguém daquela residência. Luquinha ficou com os olhos estatelados ao vê-lo em sua casa, perguntando à sua mãe se ela não tinha dado falta de um pé de chinelo.

Luquinha reuniu seu bando, imediatamente, e disse:

- Vamos roubar aquele pé de chinelo do Cido, hoje à noite. Ele vai sempre jogar no Tunguete. Vamos aproveitar esse momento e vamos em sua casa buscar o pé de chinelo. Não tem outro jeito. Ou fazemos isso ou esse sujeito vai descobrir tudo.

O Delegado foi à Igreja, logo após a missa, e disse ao Padre Bento:

- Padre, o meu investigador tem uma prova cabal do malfeitor. Creio que dentro de poucas horas iremos elucidar o caso.

- Doutor, que prova é essa?

- Respeito-lhe, demasiadamente, Reverendo, mas, isso é segredo de Justiça. Não posso dizer de jeito nenhum. 

- Mas, Seu delegado, eu sou o Pároco, pode me falar, vou guardar segredo. Quantas vezes você já se confessou comigo?!

- Padre Bento, isso não é um pecado, é segredo profissional.

- Meu filho, eu lhe vi nascer, lhe batizei, lhe crismei, foi meu coroinha. Vai ter coragem de fazer isso comigo? Conta-me logo que prova é essa?!

- Conto não! Não posso! O senhor pode revelar sobre as confissões dos fiéis?

- Claro que não! Jamais violarei o segredo do Confessionário. Exerço a minha batina e a honro com a fé com a qual Deus me confiou, e obedeço piamente o Código de Direito Canônico.

- Eu também não posso revelar sobre essa prova, sou o homem da justiça. Não posso violar a confiança do meu investigador, nem a lei, estaria cometendo um crime.                   

O Delegado foi-se embora com a pulga atrás da orelha e pensou: “Porque tanto interesse do Padre nessa prova...”.

Paulinho viu seu filho descalço e lhe disse:

- Joãozinho, cadê o seu chinelo? Já lhe dei o chinelo de presente para não ver você descalço. Não ande descalço, menino! Vá calçar o chinelo, agora!

Joãozinho correu à casa do amigo e lhe pediu um chinelo emprestado, e Carlos lhe disse:

- Mas você tem que me devolver logo, senão meu pai me dá uma surra também.

Pedrinho era muito religioso e naquele dia, resolveu se confessar com o Padre... Contou tudo e admitiu que estava com medo do investigador descobrir toda a história porque seu amigo tinha perdido um pé de chinelo. O Padre Bento pensou: “Mas, Cido, é ateu. Tenho que dar um jeito de calar a sua boca”. O Padre arquitetou um plano e mandou o seu Sacristão chamá-lo, urgentemente.

Rubens, o puxa-saco, foi à casa do investigador e, disse-lhe:

- Cido, o padre Bento quer vê-lo, agora, já! Ele disse pra você ir lá, correndo, imediatamente, agora mesmo!

- Mas, que diabo o padre quer comigo? Não devo nada para Igreja. Não sei nem se acredito em Deus.

- Não fala assim não, rapaz! Deus é tudo e tudo é amor. O padre não tem diabo nem um. Vai logo e saberá do que se trata. Quando o padre chama é como se fosse Deus... Vá logo!

- Sei lá, tenho minhas dúvidas! Mas, fala pra ele que mais tarde eu passo por lá.

Dona Julieta visita o padre Bento e lhe diz:

- Padre, eu nunca vi bicho mais feio que aquele. Era o Demo, o Demônio em pessoa. Minha Nossa Senhora da Aparecida! Só de falar naquilo fico toda trêmula. Eu fiquei frente a frente com o chifrudo do inferno. Eu já preparei uma novena. Vamos começar amanhã cedo. Padre, eu disse para os que me visitaram no hospital que se o Demo está aqui é porque estamos sem fé; é um sinal dos céus. Por isso, vamos fazer a novena.

Aquele acontecimento abalou a cidade, a zona rural e toda redondeza. Nas Igrejas, o boato era o mesmo: O Capeta está fazendo tocaia em nossa cidade.

O Padre Bento ficou com a consciência pesada e pensou: Será que devo falar sobre essa história, hoje, na hora do sermão... E, se perguntou: Será que devo levar o assunto ao Bispo?

As Igrejas protestantes começaram a fazer cultos durante o dia todo... Até os ateus temeram e começaram a procurar Igreja. A cidadezinha pacata acordou, já não era a mesma! Era gente acendendo velas no Cruzeiro do Cemitério; despachos nas encruzilhadas; promessa para todos os santos e novenas... Enfim, os religiosos se mexeram de forma jamais vista naquele lugar. Em todas as Igrejas as oferendas aumentaram, significativamente. O comércio de produtos religiosos vendia como nunca. A cidade estava prosperando.

Um velho bêbado disse o seguinte no boteco: "Esse diabo fez foi bem para a cidade, tá todo mundo prosperando e a veia linguaruda se curou, não fala mais da vida dos outros... kkkkkkkkkk".

A “palavra do dia” numa Igreja Protestante, dizia: O Senhor disse a Satanás: "De onde você veio? "Satanás respondeu ao Senhor: De perambular pela terra e andar por ela". Jó 1:7. O que causou grande temor aos fiéis.

O Investigador chegou à Casa Paroquial e foi, imediatamente, atendido pelo Padre, que, o levou ao seu escritório e lhe disse:

- Meu filho, eu lhe peço, encarecidamente, que, pare com a investigação sobre a aparição do Capeta.

- Padre, o senhor está me pedindo algo que não posso atender. E, o senhor não pode atrapalhar a investigação, não! Isso é crime também.

- Por que, meu filho? 

- Padre, eu quero pegar o desgraçado que fez isso com a minha vó. Ela quase bateu as botas. Tenho certeza que não tem nada a ver com coisa doutro mundo. Isso foi coisa de moleque, de vândalo; brincadeira de mau gosto. Se não fizermos alguma coisa para punir o responsável, ainda vamos perder um ente querido. Esse cão tem que ser preso! O senhor não acha?

- Meu filho, nem tudo parece o que é. Deus tem desígnios que só pertence a Ele. Veja o movimento da nossa cidade. O povo voltou à Igreja, voltou a ter medo dos castigos de Deus. Isso vai fazer a criminalidade zerar. Nunca se viu tanta reza por aqui. O povo voltou a temer a Deus. Os meninos e as meninas voltaram para o catecismo. O fervor da fé voltou a tomar conta da nossa cidade. Nunca vi você na missa. Falam que é ateu... Mas, pare com essa investigação, pelo amor de Deus!

- Padre Bento, eu sou agnóstico... Não estou lhe entendendo! O que tem a ver uma coisa com a outra? A autoridade policial tem que fazer a sua parte e é o que estou fazendo e não vou parar enquanto eu não pegar o meliante que fez isso.

- Meu filho, eu sei que você é um exímio Investigador de Polícia, mas, essa história não pode ir adiante. Pare de investigar. Essa história acabou fazendo um milagre por aqui. O povo voltou a ter Deus no coração. Isso não é bom?

- Padre, eu acho que o senhor está sabendo demais. Já descobriu a verdade?

- Vieram me dizer que você anda perguntando nas casas se alguém deu por falta de um pé de chinelo.

- É verdade! Eu achei um pé de chinelo novinho em folha, naquele matagal, local que dizem ter visto o Capeta. Vi muitos pisados por lá... De pés pequenos.  E, cheguei à conclusão que tem mais de um envolvido nessa tramoia. Padre, eu vou achar o criminoso que quase matou a minha vó, custe o que custar!

O Padre franziu a testa várias vezes, irritado e pensou: “Vou ter que falar com o superior desse traste e pedir para que o transfira daqui, pra lá onde o diabo perdeu as botas... Vou falar com o prefeito pé-de-boi".

O Investigador foi-se embora e não hesitou em dizer para o delegado sobre a sua visita na casa do Padre:

- Doutor, estou vindo da casa do padre.

- Que diabos você estava fazendo na casa do Bento?

- Eu fui lá porque ele mandou me chamar... Estranhei, mas... O senhor sabe, Padre é Padre, enfim.

- E o que a Igreja queria contigo?

- Só faltou se ajoelhar pra mim, Doutor. Implorou para eu parar com as investigações sobre a aparição do capeta.

O Delegado coçou seus poucos fios cabelos da cabeça e disse: “Aí tem coisa!”.  E disse ao Cido:

- Você me traga o pé de chinelo e me entrega, ainda hoje. 

- Doutor, ele está aqui, na minha mochila... pega!

- Então, essa é a prova do crime?

-  Pois é, Cabo, a partir de hoje em diante, essa investigação é minha. Você está fora desse caso. Vai cuidar de descobrir quem roubou o Jumento, do Zé Galinha, que ele está me enchendo o saco, e até hoje, você não descobriu nada.

O Investigador de Polícia obedeceu seu superior e saiu à procura do ladrão. O Doutor Clécio foi ter com o Padre Bento, cinco dias depois, e disse:

- Padre, eu tenho a prova do crime aqui em minhas mãos, e já descobri tudo e vou prender o bando que fez isso.

- Doutor Delegado, o senhor tem o quê em mãos?

- Eu tenho o pé de chinelo.

- Pé de chinelo?... O que isso tem a ver com a aparição do Capeta?

- Tem tudo a ver, padre! É a prova que não existe Capeta nenhum. Isso, foi armação de moleques. Dona Julieta quase morre e tem gente que ainda está sob efeito de calmantes... Não é justo! Esse crime não pode ficar impune! O Senhor entende, né? Vou prendê-los ainda hoje.

- Esse chinelo não prova nada, delegado. Qualquer pessoa pode ter ido naquele matagal e o esquecido. Todo moleque gosta de brincar em terreno baldio.

- Será, Padre? 

- Claro, delegado! Cuidado para não incriminar inocentes, porque daí o criminoso será o senhor e isso Deus não perdoa!

- Padre, o senhor está muito interessado no encerramento dessa investigação, por quê?

- Pense bem doutor, depois que viram o Capeta por aqui, a cidade melhorou muito, todo mundo passou a ir à Igreja. Até o roubo de galinha, parou. As missas estão lotadas. Nunca vendeu tanto produto religioso como agora. Pense no sossego que nossa cidade vive hoje. A calmaria tomou conta da nossa cidade.

- É... Padre Bento, pensado por esse lado, o senhor está coberto de razão. Minha delegacia está um deserto, nem um B.O., nem de briga de casal. Nunca vi tanta paz em nosso Município.

- Então, pra quê elucidar esse episódio? Deixa o povo pensar que o Diabo solto por aqui... louco pra dar o bote!

- Mas, Padre Bento, o Capeta não anda por todo canto do mundo, doido para tomar conta da nossa alma?

- Sim. Mas, essa já é outra história.

O Delegado deu o pé de chinelo para o Padre e deu o caso por encerrado. O Padre chamou Joãozinho e lhe deu o chinelo e lhe disse: “Vê se não o perde mais...”.

Os três capetinhas voltaram a participar, assiduamente, das missas e a ajudar o Padre no catecismo. Toda vez que o povo fraquejava na fé, desanimava na crença, deixava de ir à missa, aos cultos, e a criminalidade aumentava... a aparição do Capeta era certa.

 

Professor Osmar Fernandes, em 07/09/2009


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